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O primeiro deles. Ruim. Bom é que eu mantive a qualidade!!.. hauhauahuahua... (nao se esqueçam que é em duas partes)
O Frango Malabacado.
A pequena fazenda do Sr. Walter não é um lugar para visitas. Lá ele mora junto com a sua solidão e seus animais. É gordo e velho, mas ninguém tem certeza sobre a sua idade. Nunca se casou, despertando assim alguns boatos pejorativos sobre a sua masculinidade. Herdou do pai um bom dinheiro e a fazenda, mas nunca se interessou em cultivar nada naquelas terras. Boa parte do dinheiro já gastou, mas ainda lhe resta uma quantia. Faz 20 anos que ele ali vive e nunca pensou em se mudar. A casa, de madeira, está em mau estado e a pintura, que outrora foi verde, já não aparece mais. A cozinha é o maior cômodo da casa, com uma grande mesa no centro. A porta é frágil e tem vários buracos, causados por cupins. Essa porta dá para o pátio. No pátio há um pequeno depósito, onde o senhor guarda ferramentas e os mantimentos que compra a cada três meses. Há também um estábulo espaçoso, onde todos os animais, exceto a gata, dormem. Ao lado desse estábulo há uma estrada de chão que leva ao riacho a uns quinhentos metros dali. No lugar aonde era a horta, hoje não há mais nada além de terra seca. Ao lado da casa, há um pequeno toco de madeira manchado de sangue com um machado cravado. É ali que se corta lenha e algumas cabeças. A velha camionete fica sempre estacionada na frente da casa e de vez em quando o Sr. Walter a usa, para fazer ninguém sabe o quê.
Alan é um porco pequeno, porém extremamente gordo e preguiçoso. Nasceu há três anos e está com medo de ser servido na ceia de natal. Seus pais tiveram esse destino. O Sr. Walter pode ser sozinho, mas como come. Alan também é ardiloso e sempre arma para se dar bem. Mariana é a galinha, esbelta, de penas avermelhadas, é uma grande chocadeira, motivo esse que tem evitado que vá à panela. É esnobe e fofoqueira. Douglas é o único ganso que restou na fazenda. O Sr. Walter havia comprado três gansos e dois deles foram servidos em ocasiões especiais (natal passado, e dia de ação de graças). Também com receios de virar jantar, Douglas tem deixado de se alimentar e quando as datas comemorativas se aproximam, ele some por uns tempos. Seus piores defeitos são falar demais e ser covarde. Mariano foi um excelente cavalo, nasceu para brilhar nas corridas, mas seu talento foi desperdiçado e hoje, velho e com poucos dentes, quase não sai do estábulo. Não diz nada, não faz nada, só se levanta para comer e beber, três vezes ao dia e quando termina, volta pro seu lugar e dorme. Karla é uma gata magra, de pelos negros e fedida. O telhado é o lugar preferido dela de dia e à noite o Sr. Walter apenas abre a porta e ela entra, ronronando e se esfregando nas pernas do senhor. A vaca, leiteira, gorda e rabugenta se chama Selma. Ela e Alan são os animais mais gordos e inteligentes da fazenda. Juntos são um perigo para os outros. Esse carinho entre os dois se deve ao fato de Selma ter cuidado de Alan quando seus pais morreram. Malacabado é o frango. Um frango pequeno, indiscutivelmente feio e estupidamente ingênuo, nunca se perguntou o porquê de não ter convivido com seu pai e mãe. Ele foi um prêmio que o Sr. Walter ganhou em uma gincana na cidade. Desde então vem morando ali na fazenda. Gosta de todos os outros animais, mas nenhum dos outros gosta dele. Fala muito e acaba ofendendo sem querer. Tem um carinho excessivo por Selma, que o repudia. Gosta muito de Alan, que diz não suportar Malacabado. Mas ele não se importa porque acha que no fundo todos gostam muito dele. Esses nomes só são usados por eles e não pelo Senhor e quem escolheu o nome do frango foi Selma. Os sete animais viveram ali em paz boa parte do ano. Mas faltam dois dias para o natal, e Alan, Douglas e Mariana estão preocupados com o futuro incerto.
A neve caiu fina na manhã do dia 23 de dezembro, cobrindo todo o terreno de uma fria camada branca. Os animais ainda dormiam quando o Sr. Walter saiu com a caminhonete. Alan foi o primeiro a acordar e logo após Selma. Foram andando pelo pátio e deitaram novamente atrás da casa, perto do toco de madeira.
- Que faço agora? Estou gordo demais, velho demais, dizem por ai que nenhum senhor deixa o porco viver mais do que três anos, porque senão o sabor da carne desaparece. Ah! Se eu soubesse o motivo dele ter me dado tanta comida, talvez eu não tivesse comido como um louco. – Selma ouvia pacientemente – Mas não reclamo por isso, o senhor é bom com todos, alimento nunca faltou... - Nem para nós, nem para ele - Selma interrompeu. – Sim, e é com isso que me preocupo, o natal está chegando, amanhã é o dia em que ele sempre mata um animal para poder comer na ceia. Noto que ele tem me olhado de uma maneira estranha, como se estivesse me saboreando. Douglas, aquele covarde! Sumiu outra vez, se ao menos soubesse aonde ele se esconde, talvez eu pudesse me salvar também.
Selma que esteve quieta quase todo o tempo mugiu alto e começou a tramar um plano para poder salvar o porco.
- Bem Alan, você não pode acompanhar o Douglas, porque sejamos francos, você está gordo demais para acompanhar aquele pato, e talvez nem coubesse no esconderijo. Mas acha que não venho pensando nisso? Também estou preocupada, não por mim, ele não vai me matar amanha, talvez nem nos próximos três anos porque dou leite a ele. Mariana também não deve morrer amanhã porque ela bota ovos. Você já viu alguém comer carne de cavalo velho? Talvez o senhor estivesse querendo saborear um pato na ceia, mas hoje, você vê algum pato aqui na fazenda? Ano passado quem te salvou foi o Kamil, mas ele fugiu em Junho. Você, hoje, meu caro amigo é um alvo em potencial. Vou ser direta agora. A carne de frango, quando bem preparada, é muito saborosa.- Alan cerrou as sobrancelhas, esboçou um sorriso maquiavélico e começou a gostar do raciocínio. - Bem (continuou ela), eu conversei com Mariana ontem à noite e ela me disse que prefere ver você vivo e não aquele frango. Eu também e você sabe disso. Precisamos dar um jeito para que ele morra no seu lugar amanhã. – Sim, mas como? - retrucou Alan - Ele é pequeno e magro, não aparenta ter a idade que tem. O senhor não vai querer comê-lo. Eu já disse, ele me saboreia com os olhos. Eu realmente não consigo pensar em nada que possa fazê-lo mudar de idéia. - Eu e Mariana temos um plano Alan, e se tudo der certo, amanhã a noite o Sr. Walter estará saboreando um belo frango à marengo.