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Terra Blog

Arquivo de: Julho 2008

30.07.08

Da gincana.

Eu nunca fui o que as pessoas podem chamar de exemplo das coisas, no que tange à atitudes, beleza, condição de ser e estar, de estudo, de práticas de esporte, seja ele qual for, essas bagaças aí que nos envolvem uma vez ou outra na vida. Também nunca gostei de usar a palavra vida como acabei de fazer, porque parece que eu estou querendo me achar um grande pensador, querendo dar ao texto um ar muito filosófico e talz... ou não... sei lá... foda-se. Voltando. Nunca fui exemplo de nada. É engraçado pensar nisso porque a maioria das pessoas não é exemplo de nada também, então quem é exemplo, acaba sendo uma exceção à regra. É normal, então, não ser exemplo das coisas.
O que me fudeu, creio eu, foi sempre querer burlar essa situação. Tentar de todos os jeitos sair dessa condição normal e ser anormal pra melhor. Acabei de tornando anormal pra pior, porque como eu sempre disse aqui, sou ranzinza, mesquinho, egocêntrico, prepotente, blá blá blá. Daí, sempre me esforcei pra ser algo que, hoje eu vejo, jamais conseguiria.
Eu disse pro Nehme no domingo que foram três ou quatro coisas que eu fiz que me deixaram com uma vergonha grande e que me seguem até hoje. Não lembro em qual série do ensino fundamental eu estava, salvo engano na quarta série, e houve uma gincana no dia dos professores. Foi feita pelos alunos bem mais velhos, do terceiro ano. Eles pareciam gigantes, pra mim. A brincadeira era mais ou menos assim: uma sala competia com a outra. No pátio da escola foi disposta duas filas de pequenas provas, que seguiam paralelas, idênticas. Cada sala ia em uma fila. Não me lembro quantas provas eram, mas, por exemplo, se fossem seis provas, seis alunos de uma turma ficariam cada qual em uma. Após o início da prova, enquanto o primeiro aluno não terminasse o que ele tinha que fazer, o que estava ao seu lado, da mesma turma, não podia iniciar a sua prova. E assim, sucessivamente, até a última. Quem terminasse primeiro, perderia. To zuando. Nada mais óbvio que quem terminasse primeiro, ganharia. E assim foi até que chegou a vez da quarta série ir lá brincar. E eu pedi por favor pra professora me deixar participar. Ela deixou e me pôs na prova que eu teria que morder uma maçã que estava pendurada por um fio, sem por a mão nela. Lembro que essa era a terceira prova. Tinha mais algumas pra frente. A escola toda estava olhando. Isso foi lá na Mappe. Eis que deram início à gincana. Quarta série contra a quinta série. Disputa equilibrada até... vou deixar vocês adivinharem:

TEMPO...

É. Disputa equilibrada até chegar em mim. Eu, sem ter noção de que eu realmente fiz, pus a mão na maçã de modo a segurá-la e mordi. Saí vibrando, dando pulo, com todo mundo me olhando com cara de heim?
- Não! Não valeu!, disse uma guria que havia feito a gincana. Já falei que não pode por a mão!, continuou ela depois de um tempo. Pode voltar aqui e fazer de novo!
Lá fui eu. A escola olhando. Eu com as mãos pra trás. Tentando, por um tempo que eu julguei muito, em vão, morder aquela maçã. Nesse meio tempo, a quinta série já estava há tempos na última prova, que consistia em achar uma moeda vermelha, entre várias outras de outra cor, dentro de um balde cheio de uma gosma também vermelha. A mesma guria que gritou comigo mandou a quinta série esperar. A quinta série esperou, e ali fiquei eu tentando morder a maçã. Silêncio. Me esforçando mesmo, com vontade, mas nada. Não deu. Não consegui. A mesma guria que gritou comigo veio do meu lado, segurou a maçã e disse:
- Morde isso aí logo!
Eu mordi. A Nayara, amiga minha que estava na outra prova, pôde, então, continuar, assim como a quinta série pôde continuar, e como já estavam na última prova, ganharam.
Fomos pra sala de aula e a Grisiely estava chorando. Hahuahauhauhauahua... lembro exatamente o que ela disse:
- Você fez a gente passar vergonha!
E a Professora Vera disse, com ar pensativo:
- É... nesse tipo de coisa, a gente não pode bobear...
A imagem, a situação, o que pode ter passado na cabeça das pessoas, me incomodou muito durante muito tempo. Hoje em dia não mais. Eu me cago de rir quando eu lembro.
Analisando de um ponto mais específico, o qual seria o da capacidade, eu não tinha que me meter na gincana. Eu tinha que ficar tranqüilo, na minha, ficar apenas torcendo pros outros e não tentar ser um exemplo de alguma coisa. Como se morder uma maçã em uma gincana tosca da Mappe fosse me fazer uma pessoa melhor. Não é assim que funciona.
Mas acontece que eu fui. Me arrependo? Me arrependo de não ter conseguido morder a maçã, mas de ter tentado, não. Tenho vergonha? Tenho, mas não me incomoda mais como antigamente.
É uma história tosca, eu confesso. Muito, mas muito fútil. Mas o que eu posso fazer? Como eu disse, hoje em dia eu dou risada, estou pouco me fudendo, mas quando mais novo não. Eu lembrava e fazia de tudo pra poder esquecer o mais rápido possível.
Creio que isso vai funcionar do mesmo modo que a tentativa de publicar o meu livro. Tenho vergonha? De tentar, não mesmo. Vou ter vergonha se não conseguir.
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  • Postado em 12:05:52

27.07.08

Da vergonha e da ressaca moral.

Fiz merda. Enfim... como eu disse pro Nehme:
- eu não to com vergonha de vocês, mas com vergonha da minha atitude.
Por causa da minha incapacidade, eu não poderei passar aqui em palavras o quanto eu estou me sentindo mal. Me sentindo um tapado, um mané total, um fura-zóio filho da puta.
Apesar de não ter resultado em nada, a sensação está me corroendo muito. Acabei com a minha noite, ou melhor, acabaram com a minha noite, e eu não consigo, desde então, arranjar um ânimo, uma vontade, de tacar o foda-se, rir disso e esquecer.
Por ser vergonhoso, não contarei a história. É apenas um lembrete. Assim, toda vez que eu acessar meu blog, vou olhar esse título e tomar uma leve dose de depressão.
Bem vinda, acédia.
  • criado por  douglasmangini criado por douglasmangini
  • Postado em 19:33:04

20.07.08

Da iniciação.

O primeiro deles. Ruim. Bom é que eu mantive a qualidade!!.. hauhauahuahua... (nao se esqueçam que é em duas partes)

O Frango Malabacado.

A pequena fazenda do Sr. Walter não é um lugar para visitas. Lá ele mora junto com a sua solidão e seus animais. É gordo e velho, mas ninguém tem certeza sobre a sua idade. Nunca se casou, despertando assim alguns boatos pejorativos sobre a sua masculinidade. Herdou do pai um bom dinheiro e a fazenda, mas nunca se interessou em cultivar nada naquelas terras. Boa parte do dinheiro já gastou, mas ainda lhe resta uma quantia. Faz 20 anos que ele ali vive e nunca pensou em se mudar. A casa, de madeira, está em mau estado e a pintura, que outrora foi verde, já não aparece mais. A cozinha é o maior cômodo da casa, com uma grande mesa no centro. A porta é frágil e tem vários buracos, causados por cupins. Essa porta dá para o pátio. No pátio há um pequeno depósito, onde o senhor guarda ferramentas e os mantimentos que compra a cada três meses. Há também um estábulo espaçoso, onde todos os animais, exceto a gata, dormem. Ao lado desse estábulo há uma estrada de chão que leva ao riacho a uns quinhentos metros dali. No lugar aonde era a horta, hoje não há mais nada além de terra seca. Ao lado da casa, há um pequeno toco de madeira manchado de sangue com um machado cravado. É ali que se corta lenha e algumas cabeças. A velha camionete fica sempre estacionada na frente da casa e de vez em quando o Sr. Walter a usa, para fazer ninguém sabe o quê.
Alan é um porco pequeno, porém extremamente gordo e preguiçoso. Nasceu há três anos e está com medo de ser servido na ceia de natal. Seus pais tiveram esse destino. O Sr. Walter pode ser sozinho, mas como come. Alan também é ardiloso e sempre arma para se dar bem. Mariana é a galinha, esbelta, de penas avermelhadas, é uma grande chocadeira, motivo esse que tem evitado que vá à panela. É esnobe e fofoqueira. Douglas é o único ganso que restou na fazenda. O Sr. Walter havia comprado três gansos e dois deles foram servidos em ocasiões especiais (natal passado, e dia de ação de graças). Também com receios de virar jantar, Douglas tem deixado de se alimentar e quando as datas comemorativas se aproximam, ele some por uns tempos. Seus piores defeitos são falar demais e ser covarde. Mariano foi um excelente cavalo, nasceu para brilhar nas corridas, mas seu talento foi desperdiçado e hoje, velho e com poucos dentes, quase não sai do estábulo. Não diz nada, não faz nada, só se levanta para comer e beber, três vezes ao dia e quando termina, volta pro seu lugar e dorme. Karla é uma gata magra, de pelos negros e fedida. O telhado é o lugar preferido dela de dia e à noite o Sr. Walter apenas abre a porta e ela entra, ronronando e se esfregando nas pernas do senhor. A vaca, leiteira, gorda e rabugenta se chama Selma. Ela e Alan são os animais mais gordos e inteligentes da fazenda. Juntos são um perigo para os outros. Esse carinho entre os dois se deve ao fato de Selma ter cuidado de Alan quando seus pais morreram. Malacabado é o frango. Um frango pequeno, indiscutivelmente feio e estupidamente ingênuo, nunca se perguntou o porquê de não ter convivido com seu pai e mãe. Ele foi um prêmio que o Sr. Walter ganhou em uma gincana na cidade. Desde então vem morando ali na fazenda. Gosta de todos os outros animais, mas nenhum dos outros gosta dele. Fala muito e acaba ofendendo sem querer. Tem um carinho excessivo por Selma, que o repudia. Gosta muito de Alan, que diz não suportar Malacabado. Mas ele não se importa porque acha que no fundo todos gostam muito dele. Esses nomes só são usados por eles e não pelo Senhor e quem escolheu o nome do frango foi Selma. Os sete animais viveram ali em paz boa parte do ano. Mas faltam dois dias para o natal, e Alan, Douglas e Mariana estão preocupados com o futuro incerto.
A neve caiu fina na manhã do dia 23 de dezembro, cobrindo todo o terreno de uma fria camada branca. Os animais ainda dormiam quando o Sr. Walter saiu com a caminhonete. Alan foi o primeiro a acordar e logo após Selma. Foram andando pelo pátio e deitaram novamente atrás da casa, perto do toco de madeira.
- Que faço agora? Estou gordo demais, velho demais, dizem por ai que nenhum senhor deixa o porco viver mais do que três anos, porque senão o sabor da carne desaparece. Ah! Se eu soubesse o motivo dele ter me dado tanta comida, talvez eu não tivesse comido como um louco. – Selma ouvia pacientemente – Mas não reclamo por isso, o senhor é bom com todos, alimento nunca faltou... - Nem para nós, nem para ele - Selma interrompeu. – Sim, e é com isso que me preocupo, o natal está chegando, amanhã é o dia em que ele sempre mata um animal para poder comer na ceia. Noto que ele tem me olhado de uma maneira estranha, como se estivesse me saboreando. Douglas, aquele covarde! Sumiu outra vez, se ao menos soubesse aonde ele se esconde, talvez eu pudesse me salvar também.
Selma que esteve quieta quase todo o tempo mugiu alto e começou a tramar um plano para poder salvar o porco.
- Bem Alan, você não pode acompanhar o Douglas, porque sejamos francos, você está gordo demais para acompanhar aquele pato, e talvez nem coubesse no esconderijo. Mas acha que não venho pensando nisso? Também estou preocupada, não por mim, ele não vai me matar amanha, talvez nem nos próximos três anos porque dou leite a ele. Mariana também não deve morrer amanhã porque ela bota ovos. Você já viu alguém comer carne de cavalo velho? Talvez o senhor estivesse querendo saborear um pato na ceia, mas hoje, você vê algum pato aqui na fazenda? Ano passado quem te salvou foi o Kamil, mas ele fugiu em Junho. Você, hoje, meu caro amigo é um alvo em potencial. Vou ser direta agora. A carne de frango, quando bem preparada, é muito saborosa.- Alan cerrou as sobrancelhas, esboçou um sorriso maquiavélico e começou a gostar do raciocínio. - Bem (continuou ela), eu conversei com Mariana ontem à noite e ela me disse que prefere ver você vivo e não aquele frango. Eu também e você sabe disso. Precisamos dar um jeito para que ele morra no seu lugar amanhã. – Sim, mas como? - retrucou Alan - Ele é pequeno e magro, não aparenta ter a idade que tem. O senhor não vai querer comê-lo. Eu já disse, ele me saboreia com os olhos. Eu realmente não consigo pensar em nada que possa fazê-lo mudar de idéia. - Eu e Mariana temos um plano Alan, e se tudo der certo, amanhã a noite o Sr. Walter estará saboreando um belo frango à marengo.

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  • Postado em 00:15:05

Da sequência outra vez

Foi nesse momento que Mariano saiu da porta do estábulo. Dirigiu-se lentamente ao riacho, olhou os dois conversando atrás da casa, mas nada fez. Seguiu seu caminho, olhou o riacho congelado por alguns minutos e voltou para dormir novamente. Karla já subia ao telhado quando os dois pararam de conversar. Cada um foi para um lado, mas já sabiam exatamente o que tinham que fazer, e o que quer que seja, teria que ser feito na manha seguinte.
O Sr. Walter chegou quase perto do meio dia, trouxe um grande saco de milho com ele e três galões de vinho. Os guardou dentro do depósito. Preparou sua comida, preparou a comida dos animais, lavagem pro porco, sal pra vaca, milho pra Galinha, capim pro cavalo, sardinha pra gata e ao chegar à vez do pato, esse não apareceu. Ele não deu falta do frango. Entrou, trocou de roupa e saiu outra vez. Coisa muito rara de acontecer. O frio era intenso e Malacabado não havia saído do estábulo, nem para almoçar, dizia não estar com fome. Mariana passou a tarde inteira na companhia de Selma e Alan. Mariano saiu exatamente ao meio dia, esperar o almoço, após isso foi ao riacho, ficou olhando outra vez o gelo, voltou ao estábulo e dormiu outra vez. Karla após comer ficou dentro de casa perto da lareira. A noite chegou, e com ela a neve. Dentro da casa podia-se ver a luz da sala. A chaminé soltava fumaça. No estábulo, Selma chegou e se deitou perto do frango e o olhou com carinho o que despertou felicidade em Malacabado. – Meu querido amigo – começou ela – vejo que você está triste hoje, tem alguma coisa que te incomoda? – Nada de especial, é que sinto muito frio, minhas penas caem com facilidade, deve ser doença - Selma o olhou com nojo. - Hoje foi o dia mais frio desse inverno e em dias assim, eu prefiro ficar deitado. – Eu entendo, e fico preocupada com você, não tem se alimentado e pode ficar com anemia. Você tem que estar forte para a gincana de amanhã...- Gincana? – É gincana, que o Senhor está organizando para todos. Você não sabia? – Não – Ah, ninguém te disse nada? Coitado, talvez eles não queiram que você participe, porque é obvio que se você participar, irá ganhar, já que é astuto e bastante forte -Malacabado ouvia com felicidade e começou a se interessar. - Bom, é o seguinte, amanha o nosso senhor vai fazer uma pequena gincana, para ver quem é o animal mais corajoso da fazenda. Talvez você não tenha visto, mas hoje de manhã ele trouxe consigo um grande saco de milho, e três galões de vinho. Ele os guardou no depósito. As regras da gincana são: quem conseguir derrubar todas as ferramentas, furar o saco de milho de tal maneira que não reste nenhum grão dentro, e quem conseguir quebrar os três galões de vinho vence e ganha um superprêmio secreto. Mas os que vão participar não devem sair antes que o senhor acorde, devem começar somente depois que ele estiver saindo da porta com um avental branco. O participante não pode ser visto enquanto atravessa o pátio, porque senão é pego e perde o jogo. – Mas e você Selma, porque está me dizendo isso? Não vai participar? E como sabe tanto sobre as regras? – Não meu amor, eu estou muita velha e gorda pra esse tipo de brincadeira. Estou apenas te contando isso, porque não seria justo te deixar de fora, e sei das regras por que tenho que sabê-las, serei a juíza. Olha, fiquei sabendo que a Mariana, a Karla e o Alan vão participar. Alan disse que está muito confiante que vai ganhar, e disse também que não vai estar aqui amanha cedo, que vai estar em um lugar secreto, portanto cuidado, ele pode chegar primeiro que você. Agora já está ficando tarde, e tem que estar bem preparado para o grande dia de amanha. Boa noite, amor, durma bem.
Ao dizer isso, Selma sorriu maldosamente. Malacabado ficara muito alegre com a notícia. Precisava ganhar a gincana, precisava mostrar que era capaz, assim todos gostariam dele, e não mediria esforços para conseguir. O frango dormiu tranqüilamente e não sonhou com nada.
O dia ainda não havia chegado, quando Mariana saiu do estábulo e se dirigiu à porta da casa, com seu passo apressado, bem desengonçado, como se estivesse desequilibrada. Sentiu frio nos pés, e tentou correr, mas não foi boa idéia. Caiu, e bateu a cara no chão. Chegou na porta, deu três batidas com o bico e após dizer a senha, a porta da cozinha se abriu. Karla a estava esperando. As duas se dirigiram à sala, subiram na estante e conseguiram pegar o livro de recitas. Levaram até a mesa, e abriram em uma página que estava escrito “As maravilhas que se pode fazer com frangos de pequeno porte.” Karla ficaria deitada em cima do livro, ate que o senhor acordasse e viesse tirar ela dali, vendo assim o título chamativo. Mariana voltou ao estábulo, se deitou e esperou amanhecer. Malacabado já estava preparado quando os fracos raios de sol surgiram. Nevara bastante durante a noite e uma camada de três centímetros de neve cobria o chão.
Sr. Walter, como de costume, toda manhã do dia 24, mata um animal de sua fazenda para poder comer na ceia. Ele vem fazendo isso há 20 anos. O único que presenciou todas as mortes foi Mariano. Na tarde anterior Sr. Walter tinha ido ao médico e esse lhe disse para não mais comer carne gorda. Teria que fazer dieta, porque sua saúde não estava boa e que um peixe ou um peito de frango grelhado seria a melhor opção para a ceia. A notícia não o agradou muito e teve que desistir de matar o porco. Lembrou-se da galinha. ‘Sim’, pensou ele, “aquela galinha já me deu o que tinha que dar, não vem botado como antigamente, depois de amanhã eu compro uma nova”. Passou pela cozinha, não notou a gata, nem o livro em cima da mesa. Saiu da porta e dirigiu-se ao estábulo. Olhou, de um lado ao outro, e encontrou Mariana, que fingia dormir, atrás de Selma. Foi andando em sua direção, sem tirar os olhos da galinha. Parou ao seu lado, ficou ali por um tempo e estendeu a mão direita pra agarrar o seu pescoço. Mariana que havia ficado imóvel até agora, abriu um olho e pode ver uma mão crescendo em sua direção. Soltou um berro, e começou a correr pelo estábulo. Sr. Walter foi atrás, mas tropeçou nas tábuas soltas do chão e caiu em cima de um pequeno amontoado de capim. Ouviu um grunhido de porco, e algo se movimentando ali em baixo. Alan saiu do amontoado de capim correndo, para fora do estábulo, para a segurança. Ninguém nunca o virá correr daquele jeito. O senhor levantou e foi atrás da galinha, que estava correndo feito louca lá no fundo. Mariana encontrou um buraco estreito na parede, e tentou passar por ele. Entalou. Aquela bagunça tinha fez todos acordarem. O senhor foi chegando devagar, e agarrou as pernas da galinha, colocou as mãos no pescoço dela, e quando foi torcer, escutou um barulho de vidro quebrando dentro do depósito. Correu para fora, ainda segurando Mariana pelo pescoço e ao chegar ao depósito, viu Malacabado terminando de furar o saco de milho. O sangue ferveu e a raiva tomou o seu corpo, soltou a galinha, e andando calmamente em direção ao frango, segurou o pelo pescoço e o quebrou. O levou até o toco de madeira. Colocou o pescoço do frango ali, levantou o machado, e desferiu um único golpe, fazendo a cabeça do frango rolar para fora do toco, que se manchou mais com o sangue. O corpo sem vida foi levado para dentro de casa; o seu sangue pingou durante o caminho, manchando a neve e fazendo uma trilha macabra. O silêncio no estábulo perdurou por muito tempo.
A morte do frango logo foi esquecida. Douglas voltou à fazenda no começo de janeiro, muito magro e sujo. O corpo de Alan só foi achado duas semanas depois. Ele, ao fugir do senhor, correu para o riacho. A camada de gelo que o cobria se rompeu devido o peso do porco. Morreu congelado. Na fazenda agora cinco animais restavam, mas apenas um deles continuava a levar uma vida normal. Ia até ao riacho três vezes ao dia, bebia, depois comia um pouco de capim, voltava ao estábulo e dormia novamente.

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  • Postado em 00:13:14

18.07.08

Da falta de dinheiro.

Esse era o título original do “Da experiência evangélica.”, e eu ia falar nele o que eu vou falar nesse, mas como eu achei que seria interessante contar a história da época em que trabalhei entre crentes, resolvi separá-lo em um só. Foi por isso que ele ficou meio que “cortado”, sem ritmo.
Mas o que queria dizer naquele, e comecei dizendo, é que nunca trabalhei com salário fixo. Ganhei lá no escritório cento e quarenta reais em quatro meses. Dá trinta reais por mês. Um real por dia.
Fora isso, nunca ganhei mais nada como forma de pagamento. E nunca, nunca ganhei uma quantia grande de dinheiro de uma só vez. Nunca mais de cento e cinqüenta reais, cujos quais eu ganhei não lembro como... terá sido vendendo meu corpo sarado? Talvez, talvez...
Não que eu ache cento e cinqüenta reais uma quantia pouca; não é, mas comparado ao salário mínimo, dá 1/3. Enfim...
Meu irmão começou a trabalhar desde os 18 anos, quando passou no concurso do IBGE. Comprou uma moto, ia na faculdade, tranqüilo, sem problemas. Quando nos mudamos pra Dourados, ele saiu do IBGE e entrou como estagiário no INSS. Estágio remunerado, diga-se de passagem. Estudou e em 2005 ele passou num concurso do INSS. Em 2006 ele foi chamado. Começou a trabalhar em 2007, e hoje já tem um carro. Eu sempre disse, ele sim é inteligente.
Eu sempre precisei que as pessoas me pagassem as coisas. Quase nunca tenho dinheiro pra nada, mas quando tenho não sou mesquinho nem mão-de-vaca. São raros os momentos em que alguém me ver pagar alguma coisa, um chop, ou um lanche. E quando tenho, pago os das outras pessoas também, mas como eu disse, isso é raro. Meu irmão é bem generoso comigo e sempre me paga algumas coisas. No shopping china ele diz:
- Zé, vai lá e compra chop pra gente.
E eu vou e compro o meu e o dele.
Esses dias quando eu fui no show do Matanza em Dourados, eu tinha exatos quarenta reais. Quinze seriam do ingresso. Me sobravam vinte e cinco. Seis reais eram do ingresso do cinema pra assistir Wall E. Tinha dezenove na carteira. Após o filme (FILMAÇO!), fui nas Americanas ver alguns DVDs. Encontrei “Amor à Flor da Pele” do Wong Kar-Wai. Não resisti. Morri em doze e noventa. Me sobraram seis reais. Após sair do shopping, fomos ao espetinho do Euzébio, e foi lá que me despedi de todo o meu dinheiro. Não me sobrou mais nada. Nem um mísero real pra comprar um Halls. Num nada mesmo pra nem uma ficha de cerveja. Nem pra comprar um Fox, que é cinqüenta centavos. Nada, nada, nada. Ok. Esperando o show lá na frente do Jack’s, sentados em uma mureta, o Kiko, amigo meu, solta um comentário:
- Ow, galera, vamo ali na esquina comprar cerveja.
Ninguém falou nada. Passou uns três minutos e eu perguntei:
- Kiko, você tá querendo ir lá na esquina?
- Vamo?
- Vamo.
- Vocês vão querer cerveja?, ele perguntou. Se sim, dá dinheiro que eu vou comprar.
Os caras foram passando e eu disse:
- Cara, eu não tenho nada.
Ele parou, riu debochado e disse:
- Caralho, porque você me convida pra ir sendo que você não tem dinheiro?
Isso me ofendeu pra caramba.
- Eu não te convidei pra ir. Quem queria ir era você, eu só disse que ia junto. Outra, não vou mais com você. Vai sozinho.
- Ué, vai ficar bravinha agora?
- Vai tomar no seu cu. Não quero mais cerveja.
Sim, há um tratamento bem delicado entre os amigos.
Mas o que é foda é o cara jogar na minha cara que eu sou sugão. Não que eu não seja; eu sou! Muito sugão... talvez o mais de todo o Brasil, mas a situação não era tal pra que ele jogasse isso na minha cara. Sei lá...
Ele tá certíssimo, afinal. Quem quer beber, que ajude. Ele não tem filho barbado pra ficar pagando cerveja. O meu irmão foi com ele e compraram as cervejas.
No outro dia, no Domingo, eu fui lá no Nehme. Após horas sem fazer nada, eu perguntei pra ele:
- Nehme, vamo comprar DVD?
- Vamo!
E fomos. Estava escuro já. E chegando lá na barraca de DVD’s no Paraguai, eu desci do carro, me dirigi à bancada e, escolhendo, olho pra trás e vejo ele ainda dentro do carro. Eu estava zerado. Eu simplesmente voltei ao carro e fiquei quieto. Ele tinha dinheiro, e estava certo em não gastar. Quem queria comprar DVD era eu, e não ele.
Essa semana, eu, o Guimarães e a Karla fomos fazer compras pra quitnete, ou sei lá como diabos se escreve isso, e estávamos no Maxi, supermercado do Paraguai, bem mais barato. Uma vez lá, avistei um Danete de chocolate branco e senti vontade de comer. Perguntei:
- Ow, Guimarães, me compra um Danete?
- Pode pega.
Peguei. No caixa, vi que ele estava sem muito dinheiro. Ele tinha trinta e nove reais. A Karla tinha sete. A conta deu um tato de quarenta e três, se não me engano. Se não fosse a Karla, ele não conseguiria pagar a conta. Ainda, o meu Danete custava três e pouco. Quase faço eles passarem vergonha por causa do meu Danete.
Podem ser três histórias sem muito significado. Sem muito nexo e sem muita importância. Mas... pra mim, significam muito. Têm muita importância. Eu não posso mais ficar sugando dinheiro dos outros. Preciso ganhar o meu. Por causa da minha falta de dinheiro, perdi a oportunidade de ter uma pessoa comigo. Por causa de dinheiro, não consigo me concentrar pra escrever.
Já perdi muita coisa por falta de dinheiro.
Pra terminar, fico com a frase de um hippie que estava na portão da Unigran:
- Eu não passo vontade de nada. Não tenho dinheiro, mas também não tenho ambição.
Quem dera eu não tivesse ambições, também. =)
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  • Postado em 18:35:19