16.11.08
Da vida amorosa.
- Eu não fico com você porque eu só fico com pessoas bonitas.
Foi o que uma menina me disse certa vez. Eu tinha 17. Eu estava apaixonado sem que ela pedisse, portanto eu não a culpo. Eu me apaixonei por ela pra ver se esquecia a Jéssica. Estive apaixonado pela Jéssica por 4 anos. Eu tinha 13, ela 12. Estudava um ano antes na escola e eu me apaixonei. Ela só ficou sabendo através de uma carta que escrevi a próprio punho, guardada em um envelope que eu dobrei e colei, junto com uma palheta rosa da dunlop. Eu tinha 17. Estava me fudendo por causa das escolhas que havia feito quanto a me devotar a uma só pessoa. Desde sempre isso, pra mim, foi uma premissa maior. Nunca saí pegando geral, a uma porque eu não tenho o “know how”, a outra porque nunca achei muita graça em sair por aí beijando só pra trocar saliva. Isso se tornou um símbolo, no qual eu me baseava. Significava muita coisa, afinal. Eu acreditava piamente que aquilo era o certo a se fazer. E ficava em casa fantasiando coisas que todos fantasiam quando são crianças. Ocorre que eu não era mais criança. Trancado no meu quarto, lá eu ficava feito um bobo. Quando entreguei a carta pra Jéssica, em uma festa que a turma dela fez pra angariar fundos pra poder viajar, foi como que se a necessidade mórbida de ter que dizer, por mais que se sofra em uma quantia infinitamente superior, já que o desprezo da pessoa corrói mais quando ela sabe, se transformasse em aceitação da condição. Mas que condição?, eu pensava, o que é essa sua condição, Douglas? Como você a nomeia? Como você a vê?. Eu não tinha uma resposta concreta, mesmo porque, eu ainda era novo. Fui a Dourados e lá me apaixonei por mais duas vezes. Novamente, não rendeu frutos. A segunda delas, a Dani, foi embora pra Curitiba e engravidou de um japonês. Foi embora e eu fiquei sozinho novamente. Sem ter com quem conversar. Passava 16 horas por dia no meu quarto, no escuro, escutando radiohead e escrevendo o que a capacidade de escrever permitia. Consegui confeccionar um livro, cuja força inicial se perdeu após as mais de 15 vezes que tive que ler e corrigir. Pegue um livro de 200 páginas e o leia 15 vezes. Qual será o resultado? Nessa época, então, eu tive como verdade absoluta o seguinte: sou inamável. Não consigo despertar em mulher alguma um sentimento de posse. Nenhuma delas me quer, pensava eu. Não sou quisto. Essa era a minha condição, ser inamável. Inamável a tal ponto de gerar desprezo. Asco, realmente. Em dias mais tristes, tudo isso vinha de modo mais forte na cabeça, o que causava desespero. Não tinha expectativas mais claras; me via como um alguém de quem se sente pena, e a idéia de terem pena de mim se transformava em raiva, por não poder me mover. Foi a época em que eu passei a beber. Bebi muito, muito mesmo, e não era pra esquecer, mas pra preencher tempo e ganhar a simpatia dos outros no que eu podia fazer. Eu não podia esquecer, eu pensava, esse sou eu e essa é a minha condição. Nas festas em que ia, nada além de beber e fumar me ocorria. E lá estava eu pensando na minha condição. Encostado no canto vendo tudo o que existia à minha volta. Todo um mundo do qual eu não fazia parte. Por inveja, eu me esforçava em acreditar que aquela felicidade era aparente e que tudo o que faziam servia apenas para tapar os buracos que a falta de senso lhes proporcionava Os via como sendo pessoas que não tinham nada acertado para o futuro e que, por isso, se animavam em comentar as festas que já foram e as que iriam, programando viagens a Bonito, no carnaval, ou na praia. E eu ali no meu canto, quieto, sem ter realmente o que falar, acreditando ser superior por estar escrevendo um livro. Eu não era superior, nunca fui e só hoje eu entendo. É um fracasso o que escrevi e o que escrevo, como tudo o que me propus a fazer na vida.
E eis que surgiu a Nicoli. Eu a achei completamente linda e inteligente. Na primeira vez que falei com ela, me perguntou se eu gostava de ler filosofia. Ria das minhas piadas e demonstrava interesse. Ali estava todos os dias, falando comigo. Após um tempo, como não poderia deixar de ser, eu já estava apaixonado, tentando cuidar desesperadamente, ocupando o pensamento com o que poderia estar fazendo. Ocorre que eu ainda acreditava ser inamável e todas as coisas que ela me dizia, eu não acreditava. Entendia como sendo algo passageiro, que ela, talvez, dissesse aquilo por não poder estar mais perto de mim, pra ver com mais clareza todos os defeitos que eu acredito ter. E o tempo foi passando, como sempre passa, e ela e eu continuamos juntos, sempre conversando, sempre contando um com o outro, sempre discutindo coisas, tentando entender um monte delas, controlar sentimentos, tentar explicar que as conseqüências de alguns atos eram inevitáveis, devido à situação. Eu já estava preso à ela, bem mais do que com qualquer outra mulher que possa ter “passado” pela minha vida. Estava mais preso porque finalmente eu soube o que é reciprocidade plena de carinho e atenção, de cuidados, de entrega, de oferta sem querer em troca. Enfim eu pude saber como é o lance de ter alguém que você sabe que te ama. Que está ali pra você. É uma sensação quase que plenamente doce. Eu nunca fui frescurento ao ponto de considerar os dizeres “eu te amo” como algo sério demais. Talvez devesse. E eu disse pra ela há um tempo já e nas últimas semanas venho dizendo dezenas de vezes por dia, como se não bastasse dizer apenas uma vez, antes de dormir. Digo sempre, toda vez que posso, toda vez que a frase brota na minha cabeça, sem receio, sem pudor nenhum. Isso tudo porque sei que ela não se importa ou não se sente pressionada com os dizeres “eu te amo”. Isso porque ela também os usa, indiscriminadamente, sem barreiras, pra, justamente, demonstrar como se sente em relação ao nosso relacionamento. É recíproco, pois. É o que eu sempre quis. Ainda, dia 25 de Outubro fez um ano em que estamos assim, apaixonados. E isso só aumenta, a cada dia que passa, só aumenta. A vontade de estar sempre junto, fazendo as coisas que são típicas de casais, só cresce a cada vez que eu vejo ela sorrindo pra mim, toda linda. Eu sempre pedi uma mulher tranqüila. Que me ame; eu a amarei de volta. Sempre pedi uma mulher que eu achasse linda e que soubesse me tratar, que soubesse conversar comigo, que fosse doce, carinhosa e que risse comigo. Sempre pedi isso e eu encontrei exatamente o que eu queria. Eu procurei em muitas o que hoje, tenho em uma. E é com ela que eu quero ficar, quero estar sempre perto, junto, fazendo coisas típicas de casais. Pra que procurar em outras o que eu já encontrei?
Por fim, aqui estou eu, amando uma mulher que me ama. Fazendo com ela uma história, que já tem um ano, e que está continuando, nos demonstrando um futuro tão menos denso do que no começo.
Eu sempre disse a ela que eu me esforçaria para tê-la comigo. Estou me esforçando, assim como ela tem feito.
Hoje, tudo o que eu mais quero é levar uma vida tranqüila, sossegada. Eu e ela. Sem ninguém tentando atrapalhar. Tentando encher o nosso saco. Ela está comigo e eu estou com ela. E é isso o que me importa.
De resto, fica pro próximos posts.

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criado por douglasmangini
11:51:54