17.02.09
Da falha.
Quando eu ainda estudava na Mappe, lá pela sétima, oitava série, resolvi ser candidato para líder de sala. Votaram em mim e me elegeram. Me senti bem, me senti confiante, querido pelos outros. Enquanto todos os outros já saíam, festavam e já se pagavam por aí, eu me sentia feliz com uma eleição de líder de sala. Vai ver é por isso que votaram em mim.
Na verdade, naquela época, eu, como sempre o mais baixo da turma, tentava a todo custo impressionar todo mundo. Comecei a desenhar coisa de dragon ball que hoje eu vejo são terrivelmente mal desenhadas. Mas todo mundo dizia que eram boas. Por que diziam isso, afinal? Ah, porque eles realmente gostavam, alguns vão dizer. Eu acho que não. Acredito que era pela percepção de que, sem aquilo, eu não tinha mais nenhum recurso para ser alguma coisa.
No futebol sempre foi assim também. Eu nunca tive um condicionamento físico invejável, e enquanto os populares da minha sala já tinham peitoral e abdome definidos, eu tinha uma camada de gordura cuja qual cultivo até hoje e que sempre me impossibilitou de correr longas distâncias. Eu nunca fui atleta, nunca gostei de fazer exercícios, e hoje eu também entendo que não é uma questão sobre o porquê de deus não ter sido bom comigo ou qualquer outra coisa do gênero que eu pensava na época. A equação é simples: se eu fizesse mais exercícios do que jogasse videogame em casa, seria mais magro e mais forte do que eu era. Um amigo meu, o mais popular da escola, o T.E, jogava handeball muito bem, foi até pra São Paulo jogar, pegava muita mulher, quem ele quisesse, e eu invejava. Achava, afinal, que tudo não passava de uma questão de genética. Ou melhor, de ter nascido com aquele potencial de ser o cara. Ele se sobressaía em quase tudo, eu, em quase nada.
Enquanto todos já andavam de carro, eu brincava de comandos em ação. Enquanto todos saíam no carnaval, eu alugava uma penca de filmes e ficava em casa. Enquanto todos foram crescendo, eu continuei moleque, tanto no rosto quanto no jeito. Enquanto todos tinham cabelo, o meu começou a ficar ralo.
Voltando à eleição de líder de sala. Lá estava eu, como líder, menor que todo mundo, com um problema a ser solucionado: a limpeza da sala. Toda vez que a coordenadora entrava, ou a própria diretora entrava, era aquele xingão coletivo por causa dos papéis no chão, casca de lápis, plásticos e etc. Foi dito que quem deveria resolver isso seria o líder de sala. Pois bem, fui eleito líder de sala e queria acabar com a sujeira, já que era o que eu julguei que esperassem de mim. Levantei, pedi a palavra ao professor Joacir e disse pra todo mundo algo relacionado com:
- Vamos deixar a sala mais limpa, pessoal. Eu me proponho a limpar, e junto comigo estarão o Marcelo e a Adriely.
Eu já tinha conversado com os dois antes e eles concordaram em me ajudar.
Não deu uma semana, em uma votação onde o líder de sala tinha que intermediar, e eu juro pra vocês (sic) que eu tentei de tudo pra poder lembrar votação do que que era, mas não consegui, eu renunciei. Havia dois lados de gente falando comigo, tentando me convencer e eu renunciei.
Muitos anos depois reencontrei o Marcelo, já em Dourados, pra vocês terem idéia ele já tinha ficado três anos numa escola agrícola em Pompéia e mais dois nos Estados Unidos fazendo estágio, e ele relembrou essa história.
- Cara, você era muito bobo. Eu, até hoje, não acredito que você me convocou a lixeiro! Eu e a Adriely! Nós éramos os que mais sujavam a sala!
Disse isso rindo e eu bem sem graça.
- E depois, quando você renunciou, fez uma cara de choro e disse gaguejando e-e-eu desisto!
E foi assim mesmo. Foda foi ele lembrar como se eu tivesse feito isso já adulto. O Marcelo sempre foi assim, de ofender os outros a toa. Ainda bem que eu descobri que ele dava o cu nos Estados Unidos e que havia marcado encontro com um cara em Dourados. Eu tenho as provas. Nada contra a homossexualidade dele, mas eu me senti bem depois de saber, já que contei pra todo mundo.
Voltando... ali estava eu, vendo ele falar aquilo, com ar de deboche, lembrando exatamente da vez em que havia pedido pra eles me ajudarem, e eles concordaram na hora, e da vez que renunciei.
Ou seja, eles me apoiaram quando eu pedi, mas foi virar as costas, riram de mim. E eu imagino o quanto não devem ter me zuado, o quanto não devem ter feito nada e sujado a sala ainda mais. Não que isso seja ruim, eu teria feito o mesmo.
Muita gente hoje me apóia no que eu faço. Escrevi um livro inexpressivo, mas os amigos que leram dizem ser bom. Será que é isso mesmo?
Fiz a prova da OAB e não passei pra segunda fase. Me disseram: cara, fica tranqüilo, você é inteligente e a gente entende. Será?
A Nicoli foi a que mais foi sincera em relação ao livro. Ela disse que não gostou de 75% dele por falta de identificação e quando eu perguntei se havia apenas alguma passagem do texto que ela considerou deveras bem escrita, algumas passagem ao menos que fizesse ela abrir um sorriso de “cara, que foda!”, ela disse: nããão... aí você já está querendo demais.
Isso não é uma reclamação. Eu não queria que ela dissesse nada diferente do que realmente achasse quando lesse o livro. É uma questão de estar hoje, me sentindo, novamente, sozinho com as minhas coisas. Estar sozinho com aquilo de ruim que eu tenho, tentando acreditar piamente que é bom. Uma sensação terrível de falha, de estar incorrendo novamente nos mesmos erros que cometi durante toda a vida.
Me sinto mal, sem ânimo. Mas não vou desistir. Se eu não acreditar, não posso pedir pra que ninguém acredite. Algo em mim há de ser bom. Vou continuar procurando.

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criado por douglasmangini
13:21:39