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No sábado acordei dez da manhã, com uma puta dor de cabeça desgraçada. Estava com fome, com sede e com calor. Dourado continua, ainda, muito quente. Fui até a sala e lá estava a D., sentada na sacada, cuidando da Telefone, que é um rato minúsculo que ela comprou em um petshop por, salvo engano, dez reais. Ela o jogou dentro de uma bacia azul, com uma camiseta velha, e fica andando com aquilo pra cima e pra baixo. Me deu vontade de fumar e eu desci comprar cigarro lá no posto de gasolina que fica na esquina. Voltei e como estávamos só os dois acordados, resolvi pegar meu Vademecum e ler a Lei das Licitações. Uma meia hora depois chega a Vevê, que tá fazendo curso de assistente social e teve que ir na aldeia de uns índios fazer algo relacionado com renda familiar. Ao voltar de lá, devidamente fantasiada, com um cocar na cabeça, foi na Karla. Sentou, me pediu uns cigarros, que dei sem nenhum problema. Por volta do meio dia ela e a D. saíram e não voltaram até as quatro da tarde.Fiquei ali, estudando, até a karla acordar, por volta das duas da tarde. Acordou e foi ao banheiro. Ao sair, reclamou que não tinha papel higiênico e eu reclamei que não havia nada pra fazer de almoço. Fomos no Abevê, que fica a três quadras do apartamento. Lá chegando, fomos fazer compra, tal qual um casal feliz. Compramos o papel higiênico, lasanha da Sadia, uma erva de tereré, um suco daqueles tipo tang e quando estávamos indo em direção à ala dos hortifrutigranjeiros para comprar meia dúzia de limão para poder por na água do tereré tivemos a revelação de nossas vidas. Ali na frente, iluminada pela luz divina, sendo tomada por vozes de mil anjos, encorpadas pelo som de arpas doces e suaves que preenchiam o ambiente, uma promoção de ovo de páscoa Kinder Ovo estava sendo ofertada por leve dois e pague um, sob o custo de dezenove e noventa. Olhamos um para o outro, pensando a mesma coisa, com os olhos brilhando de contemplação pela raríssima oportunidade que nos surgiu à frente. Uma pergunta surgiu de nossas bocas também juntas, uníssona:
- O que vamos ter que deixar?
- A lasanha!, disse a Karla...
- Não, eu to morto de fome!, deixemos o suco tipo tang!
- Mas Doug, ele é só 39 centavos.
- Então deixamos a erva de tereré!
- Mas Doug, é só 1,29 centavos...
Olhei pro papel higiênico, olhei pra ela... ela me olhou a balançou a cabeça negativamente.
- Quanto você tem?
- Vinte e você?
- Meus últimos quinze.
- Beleza!, vai dar pra levar tudo, meu tio vai passar lá em casa daqui a pouco e vai me dar dinheiro.
E lá fui eu, pegar o ovo de páscoa, coisa que há anos eu não fazia, sentindo toda a sua hergonometrência, ou sabe-se lá o que isso quer dizer, todo o seu formato de ovo, o peso e o barulhinho das surpresas dentro, um barulho oco, mas ao mesmo tempo cheio, convidativo. Eu quase podia ouvir ele dizer me aaaabrraaaa, me cooooommaaaaa... hauhauahuahauhaua, credo, ovo de páscoa gay!... hauhauahuahauhau... aiai... enfim, levamos o ovo de páscoa e lá na frente do supermercado nos presenteamos mutuamente:
- Tó, Doug, feliz páscoa!
- Obrigado, Kah, te amo!, e olha o que eu comprei pra vocêê???
- Oonnn, Doug... um ovo de páscoa!...
Hahuahauhauahuahuahauhau... dois sujeitos carentes e bobos, uma semana após a páscoa, se presenteando com chocolate. Foi muito engraçado... fiquei tão feliz que trouxe até o papel do ovo pra casa!!.. Hauahauhauhauhauahua... sabe-se lá quando eu vou ganahr outro! =D...
Por volta das cinco da tarde, quando a D. já estava lá, eis que a L. liga pra ela e pede pra ir ali. A D. diz que sim e em poucos minutos ali estava a outra, na sacada. Eu e a Karla continuamos na sala, escutando radiohead, comendo chocolate, fumando e bebendo coca. Escutamos toda a conversa das duas, que se resumiu na L. pedindo pra que a D. voltasse com ela, e a D. recusando até não recusar mais, e depois uns barulhos de beijos, e depois deitadas no colchonete fininho. Tudo bem, coisa linda, o amor é mesmo maravilhoso, e eu com uma baita inveja do casal resolvi ir tomar banho e me preparar pro casamento.
O Japonês passou me buscar era 8:20 da noite. Como eu estava sem cigarro e apenas com 2 reais em moeda, pedi pra ele 1,60 pra poder comprar um. Me deu o que eu precisava, parou em uma padaria, comprei e fomos buscar a namorada dele. Feito isso, nos dirigimos pra Igreja. Foi um cerimonial bonito, eu nunca tinha ido num casamento, quer dizer, já tinha ido no do meu irmão, mas era muito pequeno, então como eu não me lembrava de nada e não tinha ido no de mais ninguém, aquela experiência foi nova pra mim. Foi entrando o noivo, os padrinhos e na hora da noiva, começou aquela música de casamento que, realmente, naquela situação é muito foda. Se eu não fosse muito macho!, arrepiava!... hauhauahuahuahau... a Paty entrou chorando, e foi tudo muito bacana. Após a falação do Diácono, fomos todos pra festa. Ah, quase ia esquecendo, a Jóósy, o Bad, a filhinha deles de um mês, coisa mais engraçadinha, e o Zé Hélio também foram e foi muito bom revê-los. Conseguimos sentar em uma mesa lá fora e mel dels, bebi e fumei demais. O Bad fez amizade com o garçon e era absolutamente incrível o fato de o meu copo não parar vazio! Eu dava duas bebericadas, tava o garçom do meu lado enchendo o que eu havia bebido. Foi tudo muito foda, tudo muito divertido. No meio eu já tava bêbado, roubei o segundo buquê da noiva, cujo qual a Paty não deixou eu levar pra casa, sentei na mesa onde o Japonês tava com a namorada dele e fiquei zuando os dois, tentando ser um pouco simpático e parecer legal, mas acho que consegui foi envergonhar um pouco o Japonês... huahauahuahua...
Eis que lá pelas três da manhã eu escuto:
- Esse é o Douglas! Olho pra trás e vejo aquele aglomerado de pessoas à minha volta:
- Olha a gravata!... contribui com a gravata, Douglas... ouvi dizer que você tem dinheiro!
Pensei fudeu, to sem um puto no meu bolso. Quando diabos eu ia saber que iam me extorquir no casamento? Eu não fazia idéia de que havia uma gravata, em todo casamento, que era cortada e que os pedaços eram entregues pra quem desse dinheiro. Se eu soubesse, tinha guardado os dois reais... pensando bem, não... não tinha guardado porra nenhuma... hauhauhauahuahau... beleza, o povo ali, em cima de mim, querendo dinheiro pra gravata e eu sem, tentando, bêbado, explicar que não tinha, e o povo pressionando, e eu me embananando, até que gritei:
- Não tenho dinheiro! Não tenho um puto no bolso! Nada, zéfini!
- Poooxa, pede emprestado!
Olhei pro lado e ninguém ofereceu.
- Ninguém vai emprestar...
- Rapaaaazz... você não vai contribuir com a lua de mel dos noivos?
Aí eu pensei e tive uma solução:
- Vou contribuir com o pós lua de mel!
Tirei dois cigarros e joguei dentro da bandeja. Eles fizeram uma cara de bah, que preto otário e foram indo embora e eu:
- Ow, quero meu pedaço da gravata!
O cara que tava cortando me deu uma olhada e tirou uma pontinha pra mim. Tá aqui comigo! =D.. hauahuahuahauah
Era quatro horas quando saí de lá, meio torto. Peguei carona com o Zé Hélio e no caminho liguei pra Karla.
- Onde você tá?
- Atrás da Happy Vídeo!
Fomos até lá. Não a vi. Deu uns dez minutos e ela apareceu.
- Karla, onde você tava?
- Numa festa, Doooug!
Bêêbada...
- Que festa?
- Ali, ó, naquele corredorzinho escuro, lá no fundo.
Só de olhar o lugar, já me senti mal.
- É festa gay?
- É...
E, então, num raro momento de lucidez, eu disse:
- Nem a pau eu entro naquela porra!...
O Zé convidou a gente pra dar umas voltas. Fomos numa zona, mas tava fechada. Depois procuramos alguma mulher na rua pra mexendo, e nada. Por fim, um barzinho pra parar e beber, mas só tinha ponta de faca. Ele nos deixou no apartamento e subimos. Os dois com fome, tive que fritar ovo pra comermos com arroz. A D. e a L. estavam dormindo na casada. De longe eu vi os primeiros raios de sol. Por não ter nada melhor pra fazer, fui dormir.