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Terra Blog

12.05.09

Da falta de jeito.

Eu não tenho jeito pras coisas. Me falta, como eu já disse por aqui, em algum post, aquilo que eu convencionei chamar de inteligência funcional. Eu não sou ligeiro pras coisas. Não consigo raciocinar rápido, quando a situação exige. Não conseguiria mentir espontaneamente caso fosse necessário. Acho que nem se eu precisasse mentir e soubesse com antecedência, eu conseguiria ser convincente. Sempre achei que essa minha “sinceridade” fosse uma virtude. Disse a todo mundo que me conhece um pouco melhor: é só me perguntar, que eu digo.
Dias atrás, exatamente há uma semana, eu tive que ir a Campo Grande pra pegar uns documentos no fórum e outro na OAB pra juntar com os outros, e também tirar a foto pra por na carteirinha. Pus o terno, uma camisa vermelho vinho, uma gravata escura e fui. Saí aqui em Ponta Porã às 6:40h, cheguei em dourados 8:20h, por causa da neblina e às 9:00h eu fui com o Eduardo pra casa dele, em Rio Brilhante. A minha idéia era ir direto em Campo Grande, agilizar tudo o mais rápido possível, voltar e pegar o ônibus dos estudantes que leva os acadêmicos de Rio Brilhante a Dourados, passar a noite lá e toda a terça feira, vindo embora à noite, chegando aqui, de volta, de madrugada. Ocorre que não foi assim. O Eduardo quis almoçar na casa dele e eu não pude dizer nada, apenas fui. Ele é filho de médico e a casa é imensa. O sistema no qual eles vivem é de gente rica, tudo muito frio. Quando eu pus o pé lá, uma Pincher Zero começou a latir e não parou até o momento em que fui embora. Latia estridentemente e mordia meu calcanhar assim que eu virava as costas. Quase dei uma bicuda nela. Ainda bem que não dei, porque assim que a mãe do Eduardo chegou, eu vi que ela tratava a porra da cadela melhor que os próprios filhos. Sentei pra comer ao lado do pai dele. Como era segunda e o Corinthians havia acabado de ganhar o Paulista, eles estavam fazendo farra do timão, por serem todos, sem exceção, palmeirenses. Falando que o Ronaldo é gordo, que vai embora cedo, que o Corinthians se contenta com migalha, e eu ali, comendo e escutando. Eis que o irmão do Eduardo, mais velho que ele, pergunta se iam fazer churrasco na terça, quando o palmeiras jogaria com o Sport.
- Claro, filho, disse o pai deles.
Foi nesse momento que eu achei que poderia dizer alguma coisa. Falar algo. Zuar o palmeiras. Me vingar pelo Timão, mano.
- De quem o palmeiras perde amanha? (Até então eu não sabia que jogaria com o Sport).
Todo mundo ficou quieto. Uns segundos depois, o pai dele disse:
- As vezes, quando estamos na casa de estranhos, temos que cuidar o que falamos, pra não ofender o dono da casa.
Eu dei uma risadinha do tipo, ahááá, boa piada, tio... Ninguém mais riu. Todo mundo abaixou a cabeça e continuou comendo. Eu fui desfazendo a cara de faceiro pra fazer uma cara de cu, com uma vergonha gigantesca, quase que do tamanho do mundo. Tinha perdido a fome. Queria sair correndo e gritando. Ele realmente se ofendeu com o comentário. E nem foi um comentário ruim. Foi uma brincadeirinha light. Tranqüila. De buenas, como eu digo. Mas não. Eu ofendi e fiquei sem jeito. Nem pedir desculpas eu pedi, pra não deixar a situação ainda mais constrangedora. Foi como se eu aceitasse a reação. Sempre fui assim. Se faço merda, acho justo sofrer as conseqüências. Essa é outra coisa que eu sempre considerei uma virtude. De novo, eu estava errado.
Fomos a Campo Grande, fizemos tudo o que tínhamos que fazer ( a minha foto ficou boa, com photoshop e tudo mais! Hauhauahuahuahauha... se bem que não precisava, mas... ... hauhauahuahua... enfim...) e quando voltamos, já beirava as nove da noite e eu tive que dormir na casa do Eduardo, aguentando a porra daquele cachorro. Eu não estava mais com vergonha. Por dentro, eu estava rindo. Ofendi o palmeirense, pensava eu. Dormi lá e no outro dia eu consegui uma carona com o irmão do Eduardo até Dourados. Antes de sairmos, eu peguei uma xícara de café. Bem na hora, o pai dele entrou com pão e mortadela. Ele deu bom dia, eu respondi e o Eduardo me ofereceu um pão. Aceitei, porque tava varado de fome. Cortei o dito cujo e fui abrir o invólucro da mortadela. Sabe aquelas que vem numa bandejinha de izopor, enrolado com papel Celofane, que é praticamente impossível abrir sem rasgar? Então. Era desse tipo. Eu, já cabreiro com o tio, fui tentar abrir certinho. Não consegui. Pensei em perguntar pro Eduardo se podia rasgar, mas decidi rasgar de uma vez. Acontece que, e eu não sei se vou conseguir descrever isso, as fatias foram postas uma em cima da outra, fazendo uma escadinha. Eu rasguei do lado onde dava apenas para pegar do... como dizer, do primeiro degrau em diante... (????)... Foi o que fiz. Grudei o dedão na primeira mortadela, a que estava debaixo de todas as outras e fui puxá-la, em vão. Como mortadela tem aquele sebinho, ela estava grudada nas demais. Comecei a puxar e não saía. Puxei mais forte e nada. Nesse momento, os três já me olhavam: o Eduardo, o pai e o irmão. Já fiquei puto. Peguei a faca e fui ‘descolando’ ela das demais. Mesmo assim, não saiu.
- Mas você é ruim de serviço, heim velho?, disse o Eduardo indignado.
Prestem (SIC) atenção. O que eu pensei foi o seguinte: putz, peguei a mortadela no lugar errado, mas eu já pus a mão nela. Já meti os dedões. Eu não posso simplesmente pegar outra. É falta de educação. Eles vão ficar com nojo, achar que eu sou porco. E foi por isso que eu insisti naquela fatia. Essa é uma outra coisa quee u sempre achei que fosse uma virtude, a de tentar sempre ser o mais educado possível em relação às pessoas. Nesse momento, deve ter alguém chiando, rindo, sei lá, dizendo que eu não sou nenhum pouco educado. Tá bom ,Day... não que eu seja a flor da educação, mas quando se trata de pais e mães de amigos, eu tento ser o melhor que posso. É por isso que limpei o banco pra sua mãe aquele dia no Hospital. Enfim... consegui, depois de muito tempo, tirar a fatia da mortadela. Aquela que eu havia posto a mão. Foi uma vitória pessoal.
Eu e minhas pseudo-virtudes.
Sabe o que é mais foda? Eu não acredito que as pessoas mudem. Ninguém muda, foi o que eu sempre disse. Ninguém muda. Acho que, infelizmente, eu nunca vou ter inteligência funcional. Ser rápido com as coisas. Ter esse tipo de sagacidade. Ter esse “jogo de cintura”, como me disseram dias atrás. Infelizmente, vou continuar assim... =/
Não é questão de não querer ser diferente. È questão de só conseguir raciocinar o que eu deveria ter feito na hora tempos depois do ocorrido. Não sei se há treino pra isso, é esse o ponto.
Fui a Dourados depois, fiquei o dia todo lá, marquei, de novo, outro encontro com a Michelly, mas sobre isso eu falo mais em outro post, e voltei pra casa.
Era pra eu escrever aqui sobre as meninas pelas quais eu já me apaixonei, relacionando o fato de nunca ter dado certo exatamente por causa dessa minha falta de jeito. Talvez eu escreva amanhã. Talvez não.
Hasta.
  • criado por  douglasmangini criado por douglasmangini
  • Postado em 00:49:41
2 comentários
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